Limpando uma das minhas pastas de fotos. Encontrei uma foto que me remete a uma lembrança muito bonita sobre um desses acasos da vida. Foi em uma destas manhãs ensolaradas que tirei o dia para ir na praia com Leka Mello. Eu tinha o hábito de fotografar algumas coisas como forma de apreciar a simplicidade de algumas coisas na vida. Foi em um destes dias, meio bobos, que me deparei com uma cena que fez viajar por uns segundos, era um casal de idosos que saiam do mar, sorrindo, brincavam um com o outro, ela pediu para ele amarrar o seu biquini. Eu achei aquilo tão bonito, que não resisti em fotografá-los. Fui até ela e ofereci a foto como um presente. Ela pegou seu óculos, olhou a fotografia e me passou o seu e-mail. Me contou um pouco sobre eles, ela era brasileira e ele era alemão, mas gostavam muito da cidade então sempre voltavam para passar alguns meses. Enviei as fotos no mesmo dia. Não esperei resposta.
No outro dia fui à uma apresentação de ballet no teatro paulo pontes com Jackson Pitanga, e outros amigos. Era uma apresentação em homenagem as vítimas da Aids. No meio da apresentação um morcego sobrevoou o palco enquanto todos os bailarinos se encontravam cobertos com panos brancos, que representava o momento da morte. E uma senhora ao meu lado suspirou " Que macabro, né?!". Olhei para o lado para confirmar, e meio surpresa, meio assustada... Vi que era ela! A senhora da praia. Meio sem acreditar peguei a câmera ainda com a foto no cartão de memória e ampliei para ver o seu rosto. Podia ser só alguém muito parecida.... com ela... e com o marido...
Até que em outro momento, ela tomou coragem e perguntou se eu era a fotógrafa do outro dia, e eu conssenti. Imaginei que ela também estivesse esperando o momento para perguntar. Ela ainda prolongou dizendo que havia respondido o meu e-mail (de maneira muito generosa) com uma mensagem em retribuição pelas fotos. Ela disse que havia acabado de receber uma outra mensagem quando abriu o meu e-mail. E que se identificou , por isto achou que deveria ser um sinal e decidiu me repassar aquilo naquele momento. Supersticiosa como sou, acreditei, mesmo sem ver. E de fato, era!
A mensagem falava sobre relacionamentos. Era um slide todos ilustrado que falava sobre como alguns casamentos resistem as adversidades. Fazia uma comparação metaforizando relacionamentos em "jogos de tênis" e "jogos de frescobol".
Ele dizia em breves palavras que os relacionamentos como,
Tênis tinha como seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
E enquanto o frescobol que se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…"
Parecia a resposta de como aquele casamento tinha sobrevivido por décadas, sobrevivendo à
todas as adversidades. Fiquei extremamente grata pela mensagem, e tão mais por estas coisas bonitas que o universo, ou Deus faz com a gente as vezes. Aquele jeito estranho de fazer as coisas se encontrarem. Tão estranho que uma semana depois, após uma prova de concurso, decidi ir a praia comer algo e conversar com o meu amigo Rhullyo Bernardo. Sentamos na calçada, e alguns minutos depois aquela mesma senhora se sentou com um milho na mão, claramente rindo do seu marido, ao olhar para o lado, o riso é prolongado, um " oi" de risos. Mas por um outro encontro de pessoas que pareciam estar sujeitas a algum tipo de piada do universo. Ela contou que tinha ido assistir um filme no estacine na estação ciências, e que sentiu vontade de comer um milho na praia. O engraçado é que antes de lembrar que havia tal prova para ser feita naquele domingo, eu havia combinado com aquele meu amigo de ir ver o tal filme no estacine, mais tarde desmarcado. Estranho, acaso, coincidência, sinais. Seja como for, a vida é bem cheia delas, se fazendo presente a quem tem olhos, ouvidos e principalmente percepção para entender se significam algo ou simplesmente se... moramos em uma cidade que é um "ovo".
Larissa Fernandes

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